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Arte Rafaela Repasch
Une - Ibiúna

Agentes da ditadura prenderam cerca de mil participantes de congresso organizado pela UNE na cidade paulista de Ibiúna, em outubro de 1968: movimento estudantil era um dos alvos dos militares (Foto: Reprodução)

Professor acorda com arma na cabeça e fica 4 anos preso

Pioneiro do Instituto de Geociências da Unicamp foi capturado e torturado por agentes da Oban

Mariana Garcia


“Quando me perguntam se fomos brigar com a ditadura e respondo que sim, as pessoas não conseguem entender. Éramos doidos? Não, não éramos. O mundo era outro, as situações eram diferentes. Naquele tempo, o mundo girava em torno da Guerra do Vietnã, e o Exército dos Estados Unidos, tido como o maior do planeta, estava sendo derrotado militar e politicamente. Nós passávamos o domingo lendo notícias e análises da guerra no Estadão. Enquanto isso, na França, o movimento dos estudantes havia forçado o primeiro-ministro a se refugiar na Argélia. Na América Latina, cresciam as guerrilhas contra os regimes ditatoriais – só não havia guerrilha no México e no Chile. Lembrando que em Cuba tinha dado certo.”

O relato acima foi feito pelo geólogo Carlos Lobão, um dos pioneiros do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp e docente aposentado da instituição. Lobão ingressou na Unicamp como aluno de mestrado em 1978. Foi o primeiro geólogo, no Brasil, a se tornar mestre e também doutor em educação. Na academia, dedicou-se a investigar a interface entre ensino e geociências, em uma época na qual não havia pesquisas sobre essa temática na América Latina. “Quem começou esse trabalho, em 1973, foi o pessoal da USP [Universidade de São Paulo], que depois também participaria da fundação do IG”, revela. No ano passado, os 50 anos dessa atuação pioneira – e responsável por formar professores de universidades de todo o país – foram celebrados por um simpósio internacional organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino e História de Ciências da Terra, do instituto.  

Carlos Lobão
O professor e geólogo Carlos Lobão: doação, para o AEL, dos autos do processo judicial militar instaurado pelo II Exército sobre a Operação Crusp (Foto: Antoninho Perri)

O professor tinha 22 anos quando foi preso, em 1969, pela Operação Bandeirantes (Oban). Esse órgão, inicialmente clandestino e fundado pelo general José Canavarro (comandante do II Exército), serviu de modelo para a criação, em vários Estados, do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi). A Oban contava com financiamento de empresários paulistas arregimentados inicialmente por Antonio Delfim Netto, esclarece o agora professor colaborador do IG, que à época cursava o terceiro ano de geologia na USP. 

A Oban, continua Lobão, representou a oficialização da tortura como método da ditadura para sufocar a crescente oposição ao regime por parte de “setores intelectualizados, de estudantes e de artistas de teatro, cinema e música”. Buscava-se conter pela força e pela censura a efervescência cultural inédita e as manifestações e greves operárias que emergiram na esteira da intensa urbanização do país e do aprofundamento de desigualdades sociais históricas, analisa. “Havia uma interação muito grande com o teatro e estava acontecendo uma renovação bastante importante na música popular brasileira. Festivais importantíssimos.” 

Lobão ingressou na USP em 1966, vindo direto do Colégio Estadual Paes de Carvalho (CEPC), de Belém (PA), então considerado uma das melhores escolas públicas do país. Prestou vestibular já instalado no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp), moradia estudantil construída na Cidade Universitária, na Zona Oeste da capital paulista. “Havia gente do Brasil inteiro, um intenso intercâmbio. A internet éramos nós conversando entre nós”, recorda-se. No mesmo ano, as universidades públicas começaram a apresentar os chamados “excedentes” – candidatos que obtiveram a nota necessária no vestibular para cursar a faculdade escolhida, mas para os quais não havia vagas. Em sua turma, embora 52 pessoas tivessem sido aprovados no vestibular, apenas 35 conseguiram de fato se matricular. 

O primeiro contato daqueles estudantes com a repressão havia ocorrido no Congresso da União Estadual dos Estudantes (UEE), no mesmo ano de 1966. Em 1967, com o aumento do número de excedentes nas universidades de vários Estados da federação, os jovens foram às ruas. Além de mais vagas, lutavam pelo direito de reorganizar suas entidades estudantis. “Com o golpe, os militares ocuparam a e puseram fogo na sede da União Nacional dos Estudantes (UNE). No congresso da UEE de São Paulo, na Semana da Pátria, eles já tinham invadido a reunião, que não era exatamente clandestina, e prendido todo mundo”, diz Lobão, que participava da organização da segurança para as passeatas de estudantes, na linha de frente.

Na comunidade de moradores do Crusp (os chamados cruspianos), também havia excedentes que aumentavam a cada ano. Era frequente ocupar apartamentos vazios no conjunto residencial, explica o professor. Posteriormente, a administração do local se encarregava de regularizar a situação. “Mas era comum a reitoria chamar a polícia, que expulsava a ocupação. Normalmente, isso acontecia de noite. Uma vez, os policiais invadiram [o Crusp] para buscar um fogão, um episódio que ficou conhecido depois como a ‘greve do fogão’. Isso foi em 1965. Em outra ocasião, ‘prendemos’ dois investigadores policiais no Crusp para soltar um rapaz que havia sido detido por eles. Depois, o pessoal do Dops [Departamento de Ordem Política e Social] invadiu [a moradia estudantil] para buscar os agentes.”

Em 1968, quatro dias após ser decretado o Ato Institucional Nº 5 (AI-5), que intensificou a repressão, tanques de guerra do quartel do Exército em Quitaúna (Osasco) cercaram o Crusp, onde viviam cerca de 1.400 estudantes. Dezenas acabaram detidos naquela noite, e o local foi ocupado. Embora seu nome constasse da lista de procurados, Lobão conseguiu escapar: suspeitando uma nova investida dos policiais, passou a dormir na casa de amigos, conforme combinado entre as lideranças. “Fiquei só com a roupa do corpo. Não tenho nada dessa época: fotografia, documentos, livros”, resume.

Manifestação CRUSP - cortada
Estudantes durante protesto no Crusp, em 1967: militares invadiriam conjunto habitacional quatro dias depois de decretado o AI-5, em 1968 (Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo)

Procurado desde então, o geólogo conta ter sido, certa vez, perseguido de carro ao tentar chegar à faculdade. A amiga que havia lhe dado carona foi presa dias depois. “Muita gente saiu do país após o AI-5. Professores foram cassados. As pessoas viajavam e deixavam coisas de ‘herança’. Nós herdamos uma vitrola e um long-play que tenho até hoje, o Take Five, do David Brubeck.” Fora do Crusp, veio-lhe a certeza de que não poderia continuar com a vida que levava. Havia duas opções: partir para o exílio ou se integrar a alguma organização envolvida na luta armada. “E aí já não seria mais resistência, porque as organizações que combatiam na luta armada também atacavam. Não eram só resistentes”, detalha. Amigo próximo dos filhos de um dos fundadores da Ação Libertadora Nacional (ALN) e concordando com as ideias políticas da organização, passou à militância clandestina.

Sequestro e prisão

Surpreendido às 3h da madrugada de 23 de outubro de 1969, em sua cama, Lobão foi levado pelos militares à sede da Oban, no Paraíso (bairro da Zona Sul de São Paulo). “Eu estava dormindo quando invadiram o apartamento. Acordei com a arma na cabeça. ‘Levanta!’, ouvi.” Ao lado da cama, havia um revólver calibre 38 e munição, o suficiente para enquadrá-lo como integrante da luta armada. Chegou aos fundos da delegacia onde a Oban se instalara sem que soubessem seu nome, pois usava documentos falsos e a batida tinha como alvo outra pessoa. “Fui sequestrado. Não tinham provas, mas, entre 1964 e 1969, mudaram a Lei de Segurança Nacional três vezes justamente para poder enquadrar as pessoas. Não havia escapatória.”

Preso, Lobão calculou ser possível sustentar a falsa identidade, mesmo sob tortura, durante algum tempo. “A gente inventava uma história que tinha coerência”, explica. Na delegacia, foi espancado e despido e recebeu choques elétricos em diferentes partes do corpo (a maioria enquanto estava pendurado em um pau de arara). Os torturadores tinham por costume mudar a região onde colocavam os eletrodos para não deixar marcas, conta o professor, que decidiu revelar sua verdadeira identidade aos militares devido à preocupação com seus familiares. “Com nome falso, minha família não iria saber que eu estava preso. Ninguém saberia. Mas precisavam saber, e iriam procurar por qual nome?”

Encarcerado por mais de quatro anos, o então estudante de geologia viu-se transferido para o Dops, depois para o Presídio Tiradentes e de lá para o Carandiru, ao qual chegou com dezenas de presos políticos. “A intenção da polícia era estimular conflitos com os presos comuns, para que houvesse alguma morte, como já tinha acontecido durante o Estado Novo”, afirma. Em 1972, diante do anúncio de que seriam distribuídos entre as penitenciárias do interior paulista, Lobão e outros presos iniciaram uma greve de fome. Como represália, os carcereiros isolaram os grevistas no pavilhão médico, onde o professor organizou, posteriormente, um curso supletivo para detentos, conhecido como Madureza.

Doi Codi
Ex-sequestrados políticos visitam as antigas dependências do DOI-Codi, em São Paulo, um dos centros de detenção e tortura mantido pelo aparelho repressivo da ditadura (Foto: Antonio Scarpinetti)

O pioneiro do IG foi enquadrado em dois processos abertos pelos militares durante a ditadura. O primeiro, como estudante, instaurado pelo II Exército como resultado da chamada Operação Crusp, acabou prescrevendo. O segundo decorreu de sua prisão como militante da ALN. Imediatamente após deixar a prisão, em 1973, retornou à USP – voltar a estudar era não apenas seu desejo, mas uma condição imposta pelo juiz para que permanecesse em liberdade. Como muitos outros militantes que haviam sido presos, Lobão mais tarde denunciou os militares pelas torturas. “O juiz não queria aceitar a nossa denúncia. Fizemos questão.”

Recentemente, o professor doou os autos do processo judicial militar instaurado pelo II Exército sobre a Operação Crusp para o Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), da Unicamp. A relação de cruspianos assassinados pelos agentes da ditadura, os nomes dos estudantes processados e uma lista com centenas de livros confiscados da moradia estudantil na ocasião, e incinerados pelos militares, também integram o material doado, que passa a fazer parte do projeto Brasil: Nunca Mais.

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