Jornal da Unicamp https://jornal.unicamp.br/ Wed, 18 Mar 2026 20:39:54 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://jornal.unicamp.br/wp-content/uploads/sites/32/2024/03/cropped-logo_unicamp_512-32x32.png Jornal da Unicamp https://jornal.unicamp.br/ 32 32 Projetos de educação midiática atuam no enfrentamento à desinformação https://jornal.unicamp.br/noticias/2026/03/18/projetos-de-educacao-midiatica-atuam-no-enfrentamento-a-desinformacao/ Wed, 18 Mar 2026 20:39:52 +0000 https://jornal.unicamp.br/?p=57826 Observatório da Desinformação da Unicamp intensifica ações para ajudar comunidade a compreenderem funcionamento das mídias

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A desinformação se tornou um dos principais desafios contemporâneos com a expansão das redes sociais. O ambiente digital mudou a forma como a informação circula e intensificou a disseminação das narrativas manipuladas e dos discursos de ódio. Diante desse cenário, o Observatório da Desinformação da Unicamp tem intensificado suas ações de enfrentamento a partir de projetos de educação midiática, como o lançamento, em breve, de três cartilhas sobre o tema e um projeto piloto que será implantado nas escolas públicas de Campinas. 

O objetivo é ajudar estudantes, professores e comunidades a compreenderem de forma crítica o funcionamento das mídias e a circulação de conteúdos no ambiente digital, destaca a pesquisadora do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), Claudia Wanderley, uma das coordenadoras do Observatório, que funciona de forma colaborativa e descentralizada. “Muitos dos conflitos vêm da dificuldade de lidar com a diferença.”

A professora Josianne Cerasoli e a pesquisadora Claudia Wanderley: informação como um direito
A professora Josianne Cerasoli e a pesquisadora Claudia Wanderley: informação como um direito

As cartilhas, com temas que abordam noções básicas de educação midiática, letramento em mídia, estratégias e desafios, fazem parte de um projeto maior, a Olimpíada Brasileira de Educação Midiática (Obem). “Todo esse material está em fase de publicação e deve ser disponibilizado gratuitamente ao público”, acrescenta.

Enquanto aguarda a confirmação da data de realização da Olimpíada, um projeto piloto está sendo organizado nas escolas públicas de Campinas ligadas ao Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid). A professora da Faculdade de Educação (FE), Nima Spigolon, uma das coordenadoras do grupo, destaca que o objetivo é ajudar estudantes e professores a lidar com a grande quantidade de informação digital que circula no cotidiano escolar. “Hoje todos produzem e compartilham informação. Precisamos aprender a fazer isso de forma crítica e segura.”

Uma das estratégias discutidas no projeto é a criação de redes de apoio dentro das escolas para ajudar os estudantes a avaliar informações. “Bibliotecários, orientadores pedagógicos, professores e gestores podem atuar com os alunos”, explica.

A professora da FE, Nima Spigolon e o biólogo e professor da Ufac, Ewerton Machado: relação entre emoção e informação
A professora da FE, Nima Spigolon e o biólogo e professor da Ufac, Ewerton Machado: relação entre emoção e informação

“O material que preparamos aborda desde o pensamento crítico e avaliação de fontes até a relação entre emoção e informação”, destaca o biólogo e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Ewerton Machado, também coordenador do Observatório. “Temos livros conceituais e também materiais pedagógicos para ajudar professores e alunos a trabalhar com educação midiática.”

Além das ações com escolas e comunidades, o grupo, que produz boletins que analisam casos de desinformação em diferentes contextos, pretende disponibilizar parte dos materiais produzidos em plataformas abertas, como a Wikimedia. “A ideia é ampliar o acesso público ao conhecimento”, destaca Wanderley. 

Informação como um direito

O Observatório, que mantém parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), funciona como um núcleo para que pesquisadores interessados possam estudar o tema a partir de diferentes áreas do conhecimento. Para a professora de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Josianne Cerasoli, uma das articuladoras do projeto, o ponto de partida é reconhecer a informação como um direito. “Buscamos entender como esse direito está sendo ameaçado hoje e o que a Educação pode fazer diante disso”, afirma.

O grupo nasceu a partir de uma articulação com o Observatório de Direitos Humanos da Unicamp e, além da produção acadêmica, aposta no diálogo com a sociedade, especialmente por meio de iniciativas de formação e extensão. 

Segundo Cerasoli, o objetivo não é atuar diretamente na checagem de informações, mas compreender as condições sociais e culturais que favorecem a disseminação da desinformação. “O que nos interessa é entender como as relações humanas criam espaço para que a desinformação tenha um papel tão desarticulador quanto vemos hoje”, explica.

Para a historiadora, a dinâmica das plataformas digitais intensifica processos que já fazem parte da história política. “Processos de exclusão política sempre passam pela mobilização de sentimentos”, afirma. 

“As bolhas parecem algo novo, mas trabalham em um campo que politicamente já está disponível há muito tempo”, continua Cerasoli, que destaca que os processos de exclusão política frequentemente começam com a construção de distanciamento emocional entre grupos. “Primeiro se corta a empatia. Depois, começam a surgir imagens negativas do outro, que levam ao desprezo, à indiferença e, em casos extremos, ao ódio”, explica.

Cartilha Noções básicas de Educação Midiática
Cartilha Estratégias e desafios para estudantes na Obem
Cartilha Letramento em Mídia e Informação

Esse processo encontra nas plataformas digitais um ambiente favorável à amplificação. Cerasoli cita estudos sobre patentes registradas por empresas de tecnologia que exploram justamente a dimensão emocional das interações online. “Nos últimos anos, mais da metade das patentes do Facebook mencionam emoção ou sentimento. Isso mostra o quanto essas plataformas operam diretamente sobre nossas reações emocionais.” Para ela, compreender essa dimensão é essencial para pensar estratégias de enfrentamento da desinformação.

Conhecimentos tradicionais

Outro eixo do trabalho do Observatório envolve a colaboração com o povo Paiter Suruí, em Rondônia, parceria que existe há cerca de uma década. Segundo Machado,  a proposta, hoje, busca ampliar o diálogo entre conhecimentos tradicionais e debates globais. “A ideia é que eles possam falar sobre a floresta e sobre o conhecimento que possuem a partir da própria perspectiva.”

Inicialmente voltado à organização do conhecimento tradicional da comunidade, o projeto passou a incluir discussões sobre desinformação em temas como floresta e mudanças climáticas. 

Uma das iniciativas mais recentes é a criação de uma MIL City — (MIL é a sigla em inglês de “letramento em mídia e informação”) na Aldeia Lapetanha. A proposta é transformar a comunidade em uma referência internacional em educação midiática indígena. “Será a primeira aldeia MIL do mundo”, destaca.

Conheça o projeto

Foto de capa:

O Observatório da Desinformação mantém parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)
O Observatório da Desinformação mantém parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)


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Agricultura orgânica é resposta para insegurança alimentar e mudanças climáticas, aponta ministra Marina Silva https://jornal.unicamp.br/noticias/2026/03/17/agricultura-organica-e-resposta-para-inseguranca-alimentar-e-mudancas-climaticas-aponta-ministra-marina-silva/ Tue, 17 Mar 2026 20:36:24 +0000 https://jornal.unicamp.br/?p=57773 Titular da pasta de Meio Ambiente e Mudança do Clima participa da abertura do 1º Congresso Técnico-Científico de Agricultura Orgânica, na Unicamp

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A agricultura orgânica é a resposta brasileira para minimizar dois dos maiores desafios enfrentados pelo mundo nas últimas décadas: a insegurança alimentar e as mudanças climáticas. Essa é a percepção de Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, que participou da abertura do 1º Congresso Técnico-Científico de Agricultura Orgânica, organizado pelo Instituto Brasil Orgânico (IBO) com apoio da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri), da Unicamp. O evento acontece até quinta-feira (19) no Centro de Convenções da Universidade.

“A agroecologia e a cultura orgânica são promotores de processos regenerativos da Terra; de preservação da biodiversidade. Ao mesmo tempo, são altamente necessários ao combate à desigualdade”, afirmou a ministra. “Nosso maior ativo é o clima equilibrado. Sem isso, o que eu vou fazer com a tecnologia e com essa quantidade de terra? Isso só se resolve com o enfrentamento da mudança do clima, e vocês, produtores orgânicos, também são uma solução. Os produtos que vêm da agricultura orgânica são mais resilientes aos processos de mudança do clima”, reforçou ela.

A ministra também apontou que incentivar políticas de financiamento, assistência técnica e suporte podem resultar em uma maior produção e, consequentemente, em alimentos chegando à mesa com preços mais acessíveis. “É muito importante que haja políticas públicas, de assistência técnica e crédito acessível para que essa produção chegue à mesa das pessoas por um preço cada vez menor. Quando você tem o suporte para alavancar essas atividades, o desdobramento é reduzir os custos. Mesmo assim, hoje já é bastante acessível. Existe, às vezes, uma tentativa de dizer que a agricultura orgânica é só de elite, mas não. É possível diminuir os custos dessa produção e ampliar o acesso”, disse.

Em sua fala de abertura, a ministra lembrou que, nesta semana, o governo federal lançou o Plano Nacional sobre Mudanças do Clima, que contará com um orçamento de R$ 27,5 bilhões. Ela ainda mencionou o Plano Nacional de Transformação Ecológica, de 2023, iniciativa do Ministério da Fazenda em parceria com outras pastas. “As mudanças climáticas precisam ser protagonistas na questão eleitoral este ano. No Brasil, onde temos seca na Amazônia e chuva demais no Rio Grande do Sul, cada vez mais os sistemas alimentares podem ser comprometidos, a segurança energética também. A população tem que ficar muito atenta a quem vai debater o tema da mudança climática com o compromisso de fazer o enfrentamento”, comentou. “As mudanças climáticas são um problema em todos os níveis, tanto para a segurança alimentar quanto para a questão energética, além de trazer riscos às nossas próprias vidas. No Brasil, com 8 milhões de quilômetros quadrados, tem lugar para todo mundo, desde que seja algo sustentável. O que não podemos é continuar comprometendo as condições em que a vida nos foi dada”, completou a ministra.

O papel da Ciência

Ao final, Marina Silva ressaltou o papel da Ciência e da pesquisa como parceiras na busca por políticas públicas que protejam de fato a população. “Cada vez mais, vamos precisar fazer políticas públicas a partir de dados e evidências. Tanto aqueles que são aportados pela academia, que vêm da pesquisa básica e aplicada, quanto aqueles que vêm da observação das pessoas, sejam agricultores familiares, populações tradicionais, pescadores e coletores, como temos em várias regiões do Brasil. Sem conhecimento é impossível, nestes tempos tão incertos e com tantos desafios, diminuir recursos e esforços para alcançar os melhores resultados. No Ministério, nós sempre fizemos política pública com base em dados e evidências. Seja em relação a desmatamentos, enfrentamento à desertificação ou resíduos sólidos, todas as nossas políticas têm um lastro técnico-científico de diferentes setores”, afirmou.

Política de Sustentabilidade

O coordenador-geral da Unicamp, Fernando Coelho, também esteve presente representando o reitor Paulo Cesar Montagner. Segundo ele, o evento acontece em um momento muito importante para a Universidade. “Estamos implementando a nossa política de sustentabilidade agora. Pensar em agricultura orgânica é discutir uma perspectiva de futuro, e esse é o papel da universidade pública: conversar com a sociedade”, comentou.

Roberto Donato, diretor executivo de Sustentabilidade da Unicamp, também enalteceu essa troca de ideias. “Temos aqui uma oportunidade de fazer uma discussão séria sobre um tema sensível para a sociedade brasileira, que é a produção de alimentos com qualidade, saúde e de forma ambientalmente correta”, apontou.

O ator Marcos Palmeira: laços entre produtores
O ator Marcos Palmeira: laços entre produtores

Produtor orgânico

O congresso ainda recebeu o ator Marcos Palmeira, também produtor orgânico destacado. “Meu interesse de estar aqui é criar laços entre os produtores. Um evento como este mostra a nossa dimensão, estimula a chegada de mais interessados”, disse. “Aqui, a gente fala sobre alimentar o mundo realmente. É importante que todos os envolvidos com o agro no Brasil venham procurar pesquisas que minimizem o uso de insumos químicos em sua produção. Espero que isso se popularize, com mais produtores e consumidores; que esta sala fique pequena no ano que vem. Temos um orgulho enorme das universidades públicas”, completou.

Economia verde 

O  “Congresso Técnico Científico de Agricultura Orgânica” tem como meta reunir, debater e disseminar trabalhos científicos e técnicos desenvolvidos por instituições de referência como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), universidades, institutos estaduais de pesquisa e profissionais do setor. O evento surge como uma iniciativa para ampliar a visibilidade e o protagonismo do setor na agenda da economia verde.

Foto de capa:

Durante a abertura do evento, a ministra Marina Silva recebeu vários presentes do público presente
Durante a abertura do evento, a ministra Marina Silva recebeu vários presentes do público presente

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Banco de dados inédito revela padrões de desinformação antivacina no Telegram https://jornal.unicamp.br/noticias/2026/03/16/banco-de-dados-inedito-revela-padroes-de-desinformacao-antivacina-no-telegram/ Mon, 16 Mar 2026 19:36:16 +0000 https://jornal.unicamp.br/?p=57657 Projeto realizado por equipe do Recod.ai reúne quatro milhões de mensagens do Telegram; informações estão disponíveis gratuitamente

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Um grupo multidisciplinar reunido pelo Laboratório de Inteligência Artificial Recod.ai, da Unicamp, mergulhou nas redes sociais e agrupou quatro milhões de postagens com apenas um objetivo: traçar os caminhos da desinformação antivacina que circula pelo aplicativo de mensagens Telegram no Brasil. O conjunto coletado inclui 1,4 milhão de arquivos de imagem, vídeo, áudio e enquetes – tudo compartilhado organicamente pelos usuários das redes ou turbinado pelos algoritmos. Com base nesses materiais, os pesquisadores criaram um banco de dados totalmente aberto, para uso sem finalidades comerciais, que está disponível no Repositório de Dados da Universidade. Trata-se de uma ferramenta que auxilia na valorização da verdade quando o assunto é saúde pública.

Infográfico de narrativas antivacina identificadas no Telegram

A análise abrangeu publicações feitas entre janeiro de 2020 e junho de 2025. O recorte temporal teve início nas primeiras semanas após a descoberta do coronavírus da covid-19 e se estendeu até os anos pós-pandemia, período de considerável circulação de desinformação na área de saúde, principalmente sobre a eficácia de tratamentos.

“Queremos entender melhor as motivações e estratégias de propagação da desinformação, mais precisamente na questão da vacinação. O tipo de comunicação que sobrevive, ganha força e se propaga nesse meio tem muita semelhança com os mecanismos de seleção natural que vemos na natureza. Se algum tipo de narrativa não está gerando engajamento, naturalmente as pessoas vão parar de reproduzi-la”, explica Leopoldo Lusquino Filho, colaborador do Recod.ai e docente da Unesp.

“Nós fizemos uma análise e conseguimos identificar que existem canais que só disseminam desinformação, outros que apenas a compartilham, e os que fazem as duas coisas. Existe uma estratégia por trás disso. Eventos externos, como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, geram um efeito dominó nessas redes. É possível perceber também que há muitas mensagens compartilhadas por robôs”, detalha o pesquisador.

Ainda de acordo com Lusquino Filho, o fato de 2026 ser um ano eleitoral no Brasil tende a intensificar a circulação de conteúdos desinformativos. Isso porque as áreas de saúde e política acabam integrando disputas ideológicas que ficam mais acirradas nesse período. “Tivemos contato com outras agências de verificação de informações e elas confirmaram que nunca houve uma quantidade tão grande de desinformação política quanto neste ano”, aponta.

A análise abrangeu publicações feitas entre janeiro de 2020 e junho de 2025
A análise abrangeu publicações feitas entre janeiro de 2020 e junho de 2025

Primeiros passos

O primeiro passo para criar o banco de dados sobre desinformação antivacina foi identificar, em artigos de agências de checagem, os principais boatos sobre o tema. A partir disso, os pesquisadores selecionaram canais e grupos no Telegram, por ser esta uma base de dados mais acessível para fins de pesquisa e por ser conhecida por disseminar conteúdos antivacina. Isso foi feito com base em palavras-chave comuns nesse meio e de recomendações do algoritmo da própria plataforma para encontrar canais públicos semelhantes com mais de mil membros.

Na sequência, os cientistas desenvolveram uma ferramenta de coleta de dados personalizada nos canais e grupos. Depois do processo de coleta, os dados passaram por uma curadoria.

O projeto contou com o apoio da empresa Maritaca.ai para uso do modelo Sabiá, que facilitou a identificação de postagens relacionadas à vacinação. A privacidade dos usuários dos canais e grupos também foi assegurada. Eles passaram por um processo de anonimização, no qual a identificação do autor da mensagem foi removida. Somado a isso, informações pessoais como telefone, e-mail e registros de entradas e saídas dos grupos também foram excluídas. Isso tudo para que o processo respeitasse as boas práticas de ética em pesquisa e proteção de dados.

Da esquerda para a direita, Michelle Diniz Lopes, Leopoldo Lusquino Filho e Christiane Versuti: falta de dados abertos e sistematizados sobre a infodemia
Da esquerda para a direita, Michelle Diniz Lopes, Leopoldo Lusquino Filho e Christiane Versuti: falta de dados abertos e sistematizados sobre a infodemia

Lacuna histórica

De acordo com o Recod.ai, a iniciativa busca suprir uma lacuna histórica em relação à falta de dados abertos e sistematizados sobre a infodemia – o excesso de informações, incluindo notícias falsas ou imprecisas, que se espalham rapidamente durante uma crise sanitária – no caso brasileiro. “Os dados mostram que a desinformação vai além da saúde e envolve disputas políticas, crenças e desconfiança nas instituições — com impactos reais, como a queda da cobertura vacinal”, ressalta o material de divulgação científica do laboratório.

O conjunto de dados ocupa 5,5 terabytes de armazenamento (1 terabyte equivale a 1.024 gigabytes), reunindo conteúdos postados por 71.672 usuários em 119 grupos do Telegram. Há 407.723 mensagens relacionadas especificamente à postura antivacina, o que corresponde a 10,2% das postagens que compõem o banco de dados.

“Analisamos as reais motivações das pessoas que consomem informação negacionista na área de saúde, principalmente no que diz respeito à questão vacinal, e quais são as estratégias eficientes para propagação dessa desinformação”, explica a doutoranda Michelle Diniz Lopes, integrante da equipe de pesquisa, graduada em Matemática e especialista em Estatística e Neurociências. “Identificamos diversos nichos: o da desconfiança institucional, crenças injustificadas, visão de mundo e política, preocupações religiosas e fobias”, conta.

O conjunto de dados ocupa 5,5 terabytes de armazenamento (1 terabyte equivale a 1.024 gigabytes), reunindo conteúdos postados por 71.672 usuários em 119 grupos do Telegram
O conjunto de dados ocupa 5,5 terabytes de armazenamento (1 terabyte equivale a 1.024 gigabytes), reunindo conteúdos postados por 71.672 usuários em 119 grupos do Telegram

Disputas ideológicas

As narrativas de infodemia postadas por usuários do Telegram viraram espaço de disputas ideológicas. No espaço virtual, surgem com frequência temas ligados à saúde, à ciência, a instituições e políticas públicas e a crenças e desconfianças, além da disputa política propriamente dita. Ainda de acordo com o material de divulgação do Recod.ai, a presença maciça dessas narrativas indica que a desinformação na área de saúde passou a ter efeitos concretos na população. Isso trouxe impactos na política pública de vacinação, como se viu na perda de penetração do Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado em 1973 para garantir às pessoas o acesso universal e gratuito às vacinas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2020, o PNI alcançou o menor percentual de cobertura vacinal da sua história (75%) , de acordo com apuração do Instituto Butantan. A desinformação tem muita influência nisso.

Na tentativa de contribuir para reverter esse quadro, o Recod.ai espera que o novo banco de dados ajude as comunidades científica e de saúde a desenvolverem estratégias baseadas em evidências para mitigar a desinformação e a hesitação vacinal. “O entendimento dos padrões da infodemia é essencial para reconstruir o diálogo e a confiança com pessoas afetadas por narrativas falsas”, reforça o material de divulgação do trabalho científico.

As mais diversas áreas de pesquisa podem se beneficiar dos dados coletados. No campo do processamento de linguagem natural, por exemplo, serve como ferramenta para entender grandes volumes de postagens; nas ciências sociais, que permite compreender as narrativas antivacina; na análise de redes, servirá para identificar grupos e perfis influentes na disseminação de desinformação; e, no estudo das realidades sintéticas, contribui para identificar vídeos e imagens que são gerados por IA para apoiar discursos antivacina.

Michelle Lopes destaca o papel social do trabalho e a sua capacidade de orientar a população em geral. “Existem muitas pesquisas que não conseguem ter uma aplicabilidade social, mas no Recod.ai nós sempre tentamos vincular esse trabalho com a extensão, para que ele possa ser aproveitado pela sociedade como um todo. É importante dizer que temos utilizado a IA para analisar e encontrar padrões, mas é fundamental sempre existir uma curadoria humana”, salienta Lopes.

Na opinião dela, é fundamental “que possamos fazer questionamentos de forma estruturada, em prol do nosso desenvolvimento como sociedade”. Isso só é possível porque contamos com diversos pesquisadores, em um grupo multidisciplinar, que nos apoiam. Nossa busca é pela verdade.”, completa.

Em uma nova etapa do trabalho, os pesquisadores querem compreender o que leva as pessoas a aderirem a esse tipo de conteúdo
Em uma nova etapa do trabalho, os pesquisadores querem compreender o que leva as pessoas a aderirem a esse tipo de conteúdo

Ressentimento

A pós-doutoranda Christiane Versuti, com formação em Ciências Sociais e Comunicação, colaborou como pesquisadora no projeto. Ela entrou como uma usuária comum em diversos grupos do Telegram e acompanhou suas movimentações. Nesse ambiente, percebeu que o ressentimento e a busca por pertencimento movem quem acompanha cada postagem. “A falta de letramento midiático torna tudo ainda mais hostil. As pessoas não têm o hábito de checar as fontes ou só compartilhar algo quando têm certeza do conteúdo”, diz a pesquisadora.

Para Versuti, o ambiente digital fica ainda mais turbulento quando a questão da religião aparece. “É a lógica do racional contra o emocional. Tem gente que só aceita a ciência quando a informação bate com suas crenças. O mesmo acontece em relação à imprensa: os jornalistas só são considerados sérios quando falam o que a pessoa defende”, destaca Christiane, que se deparou com momentos que beiram o absurdo. “Encontrei mensagens que tratavam a enzima conhecida como luciferase como algo demoníaco apenas pela vaga lembrança que seu nome trazia. Outras apontavam que a aplicação dessa enzima transformaria as pessoas em zumbis”, lembra Versuti, explicando que luciferase é uma enzima bioluminescente que catalisa a oxidação, produzindo luz em diversos organismos como vagalumes, bactérias e fungos, por exemplo.

Próximas etapas

Em uma nova etapa do trabalho, os pesquisadores vão além da identificação das mensagens antivacina. Eles querem compreender o que leva as pessoas a aderirem a esse tipo de conteúdo. “Outros projetos de pesquisa já coletaram bases de dados amplas como a nossa, mas não as disponibilizam gratuitamente. Esse material costuma ser vendido por valores altos. Mas, no nosso caso, qualquer outro grupo acadêmico pode pegar as análises que a gente fez. Já disponibilizamos a base de dados do Telegram e, agora, estamos trabalhando com o Instagram, YouTube e X. Vamos disponibilizar isso ainda este ano, também de forma totalmente aberta e gratuita”, adianta o pesquisador Lusquino Filho. Neste mês, representantes do Recod.ai vão se reunir com funcionários do Ministério da Saúde para oferecer a ferramenta como fonte de futuras políticas públicas no país.

O banco de dados é resultado de uma parceria entre o Recod.ai e a Maritaca.ai, reunindo expertises acadêmicas e tecnológicas no desenvolvimento de soluções baseadas em IA. O projeto recebeu apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do Projeto Horus, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Ministério da Saúde, a partir do Projeto Aletheia, iniciativa de pesquisa que usa IA e linguística computacional para combater a desinformação em saúde.

Além de Leopoldo Lusquino Filho, Michelle Lopes e Christiane Versuti , o projeto teve a participação direta de Ana Carolina Monari e Anderson Rocha, coordenador do Recod.ai.

Foto de capa:

O conjunto coletado inclui 1,4 milhão de arquivos de imagem, vídeo, áudio e enquetes – tudo compartilhado organicamente pelos usuários das redes ou turbinado pelos algoritmos
O conjunto coletado inclui 1,4 milhão de arquivos de imagem, vídeo, áudio e enquetes – tudo compartilhado organicamente pelos usuários das redes ou turbinado pelos algoritmos

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Cientistas discutem novas técnicas para enfrentar o câncer https://jornal.unicamp.br/noticias/2026/03/13/cientistas-discutem-novelas-tecnicas-para-enfrentar-o-cancer/ Fri, 13 Mar 2026 18:00:57 +0000 https://jornal.unicamp.br/?p=57562 A terceira edição do Congresso CancerThera acontece dias 12 e 13, com a participação de especialistas em áreas como medicina, química e física, entre outras

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Cientistas brasileiros e estrangeiros de diversas áreas se reúnem nesta semana na Unicamp para discutir novas técnicas e abordagens contra o câncer, uma doença que deve registrar 781 mil novos casos por ano no Brasil até 2028, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional do Câncer (INC) no início de fevereiro.

O 3º Congresso CancerThera acontece nesta quinta e sexta (dias 12 e 13) no auditório da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), com a participação de especialistas em áreas como medicina, química e física, entre outras. Neste ano, o tema do encontro é “Os desafios da pesquisa translacional no Teranóstico em câncer”. Teranóstico é a junção de conceitos de terapia e diagnóstico, e a ideia é debater formas de levar os avanços obtidos em pesquisa acadêmica até o paciente.. 

De acordo com hematologista Carmino de Souza, pesquisador responsável pelo  Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) CancerThera e presidente do Congresso, o encontro abre espaço para o debate sobre os mais recentes avanços no desenvolvimento de radiofármacos e metalofármacos (medicamentos de precisão nos quais as propriedades físico-químicas de um metal são usadas para realizar tarefas moleculares). Além disso, o seminário vai discutir estratégias diagnósticas e terapêuticas inovadoras para os cuidados de pacientes oncológicos.

Neste ano, o tema do encontro é “Os desafios da pesquisa translacional no Teranóstico em câncer”
Neste ano, o tema do encontro é “Os desafios da pesquisa translacional no Teranóstico em câncer”

“A função do Congresso é dar oportunidade para que todos os envolvidos no Cepid possam ver as atividades de pesquisa que estão sendo desenvolvidas e os respectivos resultados. Alguns são preliminares, outros, mais definitivos”, disse Souza.

“Não estamos falando apenas de irradiação. No casos de câncer de pele, por exemplo, a gente praticamente não falou de irradiação no sentido nuclear. Nós falamos de fotodinâmica, falamos de novos fármacos, falamos de metais”, observa. A fotodinâmica é uma técnica medicinal que utiliza a interação entre luz e um fármaco sensível à luz para destruir células doentes de forma extremamente precisa.

“Quando você conhece o inimigo e sabe quantos são, onde estão e aonde vão, você escolhe as armas com as quais vai lutar”, afirma. “No câncer é a mesma coisa”, argumenta.

Carmino de Souza diz que o seminário também discutirá a chamada “medicina personalizada”, na qual o tratamento é individualizado com base em características próprias de cada organismo.

Cepid CancerThera

Instalado na Unicamp em maio de 2023, o Centro de Inovação em Câncer com Ênfase em Metais e Teranóstico (CancerThera) tem como tarefa desenvolver atividades de pesquisa, inovação e difusão do conhecimento para a criação de novos fármacos e radiofármacos baseados em metais para diagnóstico e tratamento do câncer, incluindo novos usos para radiofármacos já conhecidos.

Além disso, o centro agrega pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, incluindo oncologia clínica, onco-hematologia, química, medicina nuclear, farmácia, estatística, biologia e física, adotando um modelo inovador no país para se transformar numa instituição de classe mundial no estudo do câncer.

Tipos de câncer mais incidentes

Homens

Próstata (30,5%) – Cólon e reto (10,3%) – Pulmão (7,3%) – Estômago (5,4%) – Cavidade oral (4,8%)

Mulheres

Mama (30,0%) – Cólon e reto (10,5%) – Colo do útero (7,4%) – Pulmão (6,4%) – Tireoide (5,1%)

Fonte: INC

Alerta

➔  781 mil novos casos de câncer estimados por ano no Brasil em cada ano do triênio 2026-2028.

➔  518 mil casos anuais da doença, excluídos os tumores de pele não melanoma.

➔  O câncer se aproxima das doenças cardiovasculares como principal causa de mortes no Brasil. 

Foto de capa:

Doença deve registrar 781 mil novos casos por ano no Brasil até 2028
Doença deve registrar 781 mil novos casos por ano no Brasil até 2028

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Cepagri amplia acesso a dados meteorológicos em tempo real https://jornal.unicamp.br/noticias/2026/03/13/cepagri-amplia-acesso-a-dados-meteorologicos-em-tempo-real/ Fri, 13 Mar 2026 16:33:39 +0000 https://jornal.unicamp.br/?p=57553 Novo site conta com imagens de satélite, gráficos interativos e atualização a cada dez minutos para informações mais precisas

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Dados meteorológicos atualizados em tempo real, imagens de satélite interativas e novas ferramentas de monitoramento climático facilitam cada vez mais o acesso da população às informações sobre o clima. No novo site do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Unicamp, as novas tecnologias permitem que o público tenha informações mais precisas sobre, por exemplo, temperatura, precipitação, velocidade do vento, umidade relativa do ar e fenômenos como El Niño e La Niña. Visite o site

O site, um dos mais antigos da Unicamp, foi lançado em 1995 e passou por diversas reformulações ao longo de mais de 30 anos, destaca a coordenadora-associada do Cepagri, Renata Ribeiro Gonçalves. “Com as atualizações, melhoramos a navegação e ampliamos o acesso público aos dados produzidos”, destaca.

Uma das novidades da nova versão é a integração com a plataforma Labsat, que permite visualizar imagens de satélite com diferentes camadas de informação. “Antes, a plataforma tinha imagens sem interação. Agora, o usuário pode interagir e analisar diferentes informações”, explica Gonçalves, que ressalta que as imagens são geradas a partir de dados de um satélite geoestacionário que monitora cerca de um terço do planeta, incluindo toda a América do Sul. “É possível mapear, por exemplo, focos de incêndio, temperatura da superfície, temperatura do oceano e quantidade de raios”, afirma.

 A coordenadora-associada do Cepagri, Renata Ribeiro Gonçalves: imagens de radar meteorológico em tempo real
A coordenadora-associada do Cepagri, Renata Ribeiro Gonçalves: imagens de radar meteorológico em tempo real

Há também gráficos inéditos, que mostram variações nas últimas 24 horas, nos últimos 15 dias e dados históricos dos últimos 30 anos. “É possível escolher períodos determinados e analisar médias históricas”, exemplifica Gonçalves. De acordo com a coordenadora, a previsão é atualizada todos os dias e, se houver mudanças mais significativas, a atualização pode ocorrer mais de uma vez ao dia. “Essas previsões são feitas e assinadas pelos meteorologistas”, ressalta.

Nos próximos meses, o site também deverá incorporar uma plataforma com imagens de radar meteorológico em tempo real, projeto em parceria com a Agência Metropolitana de Campinas (Agemcamp) e a Defesa Civil. “O radar permite saber exatamente onde está chovendo e qual a intensidade da precipitação. Se houver uma tempestade muito forte, com cerca de meia hora de antecedência já será possível prever e acompanhar o deslocamento”, explica. Segundo a coordenadora, a ferramenta deverá contribuir para a emissão de alertas meteorológicos e para o monitoramento de eventos extremos. O radar, instalado em 2024 no Museu Exploratório de Ciências da Unicamp, entrou em operação em dezembro passado.

Gonçalves ressalta que o site é utilizado por diversos públicos, desde pesquisadores até profissionais de setores que dependem das condições climáticas, como agricultura, por exemplo. “Essas informações são de acesso gratuito para a população e também podem apoiar pesquisas científicas.”

O novo portal levou cerca de um ano e meio para ficar pronto, em um trabalho conjunto com a Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (Cocen). “O trabalho foi feito em parceria com a nossa coordenadoria e o desenvolvedor Derivaldo Reis de Sousa, da equipe de tecnologia da informação. A gente passava as demandas e ele desenvolvia”, relata Gonçalves, que destaca que a plataforma continuará sendo atualizada conforme novas ferramentas e demandas surgirem. “É um site que vai estar em constante atualização, porque as informações meteorológicas mudam o tempo todo e também existem demandas da imprensa, do turismo, dos aeroportos e de outros setores.”

Além de fornecer dados climáticos para o público em geral, o Cepagri desenvolve pesquisas em diferentes áreas, incluindo o uso de inteligência artificial (IA) aplicada à análise de dados ambientais. “Utilizamos técnicas de IA para cruzar informações como dados sobre clima, índice de vegetação e ocorrência de incêndios. Isso permite identificar relações e gerar resultados mais precisos”, diz.

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Cepagri amplia acesso a dados meteorológicos em tempo real
As novas tecnologias permitem que o público tenha informações mais precisas

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Ana Frattini, da fábrica ao sistema de CT&I https://jornal.unicamp.br/noticias/2026/03/12/ana-frattini-da-fabrica-ao-sistema-de-cti/ Thu, 12 Mar 2026 19:05:42 +0000 https://jornal.unicamp.br/?p=57220 Pró-reitora foi a primeira mulher a integrar lista tríplice da Fapesp para assumir Diretoria Científica da fundação; engenheiro agrônomo Marcio de Castro Silva Filho é reconduzido ao cargo

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Não será desta vez que uma mulher vai assumir a Diretoria Científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O engenheiro agrônomo Marcio de Castro Silva Filho, no cargo desde abril de 2023, foi nomeado para um novo mandato de três anos por meio de decreto publicado nesta quarta-feira (11). Ele encabeçava a listra tríplice encaminhada pelo Conselho Superior da Fapesp ao governador Tarcísio de Freitas, na qual constava também o nome da engenheira química Ana Maria Frattini Fileti, primeira mulher a ser indicada, e do físico Luiz Nunes de Oliveira. “Permaneço feliz na Unicamp”, afirma Frattini, que completará em abril dois anos à frente da Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) da Universidade.

O vínculo de Frattini com a Unicamp é antigo: remonta à primeira metade da década de 1980, quando a hoje professora titular da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) se tornou aluna do Colégio Técnico de Campinas (Cotuca). Foi ali, no Cotuca, que a então jovem estudante descobriu a sua inclinação para o setor industrial. “Percebi, ao estagiar em uma fábrica de refrigerantes, que queria trabalhar com engenharia mecânica ou química”, relembra. “Não queria ficar restrita à indústria de alimentos, que era a área do meu curso técnico. Mesmo sendo adolescente, foi uma escolha muito lúcida.”

Frattini começou a sua trajetória na FEQ como aluna de graduação. Embora houvesse poucas mulheres na turma, ela se sentia à vontade entre os colegas e professores. “Eu não via nenhuma hostilidade dentro da academia”, afirma. Nas indústrias em que realizou estágios, contudo, a situação era bem diferente. “Os ambientes eram muito masculinos. Isso nunca foi um problema para mim, mas havia falta de respeito e de confiança. Em contatos com fornecedores, sempre achavam que eu era a secretária do engenheiro.”

As dificuldades enfrentadas durante os estágios fizeram Frattini optar por permanecer na FEQ depois de formada. Matriculou-se no mestrado e depois no doutorado, durante o qual desenvolveu um software para controle de processos químicos baseado em inteligência artificial – algo tão novo para a época que alguns periódicos relutaram em publicar os resultados do trabalho. “As revistas me pediam para explicar por que eu não havia usado a matemática clássica”, recorda.

Filha e sobrinha de mestres da tradicional escola campineira Culto à Ciência, Frattini nunca havia pensado em seguir a carreira do pai e da tia, mas acabou tomando gosto, durante a pós-graduação, pela arte de transmitir conhecimento. Prestou concurso, foi aprovada e tornou-se docente da FEQ. Suas pesquisas com inteligência artificial não demoraram a chamar a atenção de indústrias interessadas em aumentar a eficiência de seus processos produtivos. “O status de professora da Unicamp deu legitimidade ao meu trabalho”, afirma.

Frattini desenvolveu numerosos projetos em parceria com empresas nas últimas décadas, os quais renderam patentes e contratos de licenciamento de tecnologia para a Unicamp, além de reconhecimento interno e externo para a docente. Homenageada com o Prêmio Inventor Petrobras 2020 pelo desenvolvimento de um sistema ultrassônico de monitoramento de escoamentos bifásicos para processos industriais, ela foi convidada no ano seguinte a ocupar o cargo de diretora-executiva da Agência de Inovação da Unicamp (Inova), o qual deixou em abril de 2024 para assumir o comando da PRP.

Nesta entrevista ao Jornal da Unicamp, Frattini traça um panorama do sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação, relata suas experiências na administração universitária e explica de que forma a presença de mulheres em posições de liderança no mundo acadêmico pode contribuir para aumentar a participação feminina na pesquisa.

Ana Frattini começou sua trajetória na FEQ como aluna de graduação, e as dificuldades enfrentadas durante os estágios a fizeram optar por permanecer na Universidade depois de formada
Ana Frattini começou sua trajetória na FEQ como aluna de graduação, e as dificuldades enfrentadas durante os estágios a fizeram optar por permanecer na Universidade depois de formada

Jornal da Unicamp (JU)Com base em sua experiência como diretora executiva da Inova e em seu longo histórico de parcerias de pesquisa com o setor produtivo, que avaliação a sra. faz do sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação?

Ana Frattini – O Brasil sempre aparece entre o 11° e o 15° lugar nos rankings internacionais de produção científica. Nos rankings de inovação, no entanto, o país cai para a 50ª posição. Isso significa que não conseguimos converter a pesquisa científica em inovação para a indústria ou para a sociedade. A Unicamp se distancia das universidades brasileiras no que se refere ao contato com empresas (públicas ou privadas), mesmo quando consideramos apenas a realidade de São Paulo, que é um Estado diferente dos demais. Por existir uma ampla relação de confiança universidade-empresa construída ao longo dos anos, o contato aqui é muito mais intenso. Nós transferimos de 25 a 35 tecnologias por ano. Não é pouca coisa. Este é um exemplo de colaboração efetiva para o alcance da soberania tecnológica do país.

JU – Por que a Unicamp está tão à frente das demais universidades brasileiras nos indicadores de inovação?

Ana Frattini – Durante um bom tempo, a pressão sobre as universidades era para que houvesse publicações científicas, além da formação de recursos humanos. Agora, já existe a compreensão na sociedade de que produzir artigos ou qualquer outro material escrito é fundamental, mas não suficiente. As pessoas querem que o conhecimento gerado na academia ajude a melhorar a vida delas e a resolver problemas regionais, como o da desigualdade social, e mundiais, como o da mudança climática. A pressão externa por indicadores diferentes vai aproximar as universidades de fora do Estado de São Paulo do ecossistema de inovação, mas isso não acontecerá de uma hora para a outra, porque a cultura da produção científica foi muito forte nos últimos 20 anos. Na Unicamp, a mudança de cultura está mais madura. Já possuímos um portfólio de mais de 1.300 patentes. Não deixamos de fazer pesquisa básica, mas os pesquisadores que se dedicam a essa atividade, que é muito importante, não veem com maus olhos os colegas que querem gerar novas tecnologias, colocar produtos no mercado ou elaborar novas políticas públicas.

A pró-reitora de Pesquisa foi também diretora da Agência de Inovação da Unicamp
A pró-reitora de Pesquisa foi também diretora da Agência de Inovação da Unicamp

JU – Que aspectos a sra. destacaria de sua gestão na Inova?

Ana Frattini – O reitor Antonio Meirelles me convidou para dirigir a Agência de Inovação justamente porque eu sabia conversar com empresas. A Inova, que foi criada em 2003, já tinha atingido um bom nível de maturidade, mas havia a necessidade, apontada por um estudo da Procuradoria Geral da Universidade, de transferir a gestão administrativa da agência para a Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp). Fui incumbida de implementar essa mudança. Padronizamos os contratos de todos os profissionais da Inova e fizemos um planejamento para as diferentes equipes de trabalho, estabelecendo ações e metas específicas para cada uma delas. O plano está vigente até hoje e recebe pequenos ajustes sempre que necessário. Algumas metas tiveram de ser ampliadas, porque os docentes da Unicamp já entenderam como funciona o sistema de inovação. Os números de patentes requeridas e de convênios com empresas aumentaram nos últimos anos, e há mais dinheiro da iniciativa privada entrando na Universidade.

JU – A sra. deixou a diretoria executiva da Inova, em 2024, para substituir o professor João Marcos Travassos Romano no comando da PRP. Como foi a sua adaptação à nova função?

Ana Frattini – Quando cheguei à PRP, com o meu pensamento de engenheira e de ex-diretora da Inova, precisei estudar um pouco para compreender como as áreas mais tecnológicas, que eu conheço melhor, poderiam se inter-relacionar com as pesquisas fundamentais, com as pesquisas das ciências humanas. Hoje eu entendendo perfeitamente que o nosso Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (Hids), por exemplo, deve ser um laboratório vivo não apenas para testar os protótipos de equipamentos e novas tecnologias de produção de energia limpa, mas também para que os pesquisadores das ciências humanas avaliem o possível impacto dessas inovações sobre a sociedade. Por mais que uma tecnologia seja eficiente e dê lucro, ela não pode ser instalada em um determinado local se isso prejudicar a população ou o meio ambiente daquela região. Aprendi a olhar as coisas de forma mais ampla aqui na PRP, incluindo também toda a diversidade de atuações da área da saúde.

JU – Quais foram as principais realizações da PRP nestes seus quase dois anos de atuação como pró-reitora?

Ana Frattini – Desde que cheguei à PRP, estamos fazendo um diagnóstico das ações necessárias para que a Unicamp continue a ser reconhecida como uma universidade forte em pesquisa. Manter-se no topo é algo que depende de organização. Um dos primeiros pontos que chamaram a minha atenção foi um estudo da PRP e do SBU [Sistema de Bibliotecas da Unicamp], que havia acabado de ser divulgado, mostrando que a produção científica da Unicamp era predominante masculina. Fomos investigar por que isso acontecia e constatamos que o percentual de mulheres na docência diminuía nos níveis mais altos da carreira, embora fosse similar ao de homens no nível de entrada. Ou seja: as mulheres estavam ficando pelo caminho. Decidimos, então, lançar o edital “Mais Mulheres na Pesquisa” para fortalecer os grupos de pesquisa com liderança feminina. Vamos mantê-lo como um edital em linha pelo tempo que for necessário. Também identificamos a necessidade de facilitar o acesso dos estudantes que entram na Unicamp pelo Vestibular Indígena ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), que é muito concorrido. Lançamos um edital específico para esses alunos. Os contemplados estão recebendo apoio financeiro para desenvolverem pesquisas relacionadas às suas respectivas comunidades de origem. O lançamento desses dois editais foi possível porque, em uma ação conjunta com a PRDU [Pró-Reitoria de Desenvolvimento Universitário], conseguimos aumentar em 50% o valor do orçamento do Faepex [Fundo de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão]. Eu destacaria, ainda, o diagnóstico de que era preciso padronizar o modo de operação dos diferentes escritórios de apoio institucional à pesquisa existentes na Universidade. Preparamos e emitimos uma resolução para orientar as equipes dos escritórios com relação às atividades que se esperam desses órgãos. Isso forneceu um arcabouço jurídico para embasar as respostas dos funcionários às demandas que eles recebem dos docentes.

Ana Frattini: Unicamp continue a ser reconhecida como universidade forte em pesquisa
Ana Frattini: ações para que a Unicamp continue a ser reconhecida como universidade forte em pesquisa

JU – Que outras ações a sra. gostaria de implementar no âmbito da PRP?

Ana Frattini – Estamos pedindo que os coordenadores de pesquisa sejam os nossos facilitadores em suas respectivas unidades no que se refere à promoção da cultura do compartilhamento de espaços e equipamentos, muito forte no exterior. Durante muito tempo, investiram-se dinheiro e recursos humanos para que cada professor trabalhasse no seu próprio nicho. Agora, vemos que a pesquisa dá melhores frutos quando é feita de forma multidisciplinar. A cultura do isolamento não nos permite estar na fronteira dos conhecimentos. Queremos que o compartilhamento seja cada vez mais bem aceito pelos nossos grupos de pesquisa porque acreditamos que este seja o futuro da universidade, além de ser uma forma de otimizar os recursos. Não faz sentido replicar equipamentos em diferentes unidades, muito menos em dois ou mais laboratórios de pesquisa de uma mesma unidade. Precisamos atuar fortemente para que as pessoas compreendam que este é um momento de dinheiro mais curto e investimentos menores. Precisamos aproveitar melhor o que temos, de forma institucional, tanto em termos de equipamentos como de recursos humanos, senão não conseguiremos suprir as necessidades de todos. Esta é a minha visão de futuro para o curto prazo.

JU – Como a sra. vê a presença das mulheres no sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação atualmente? Em que medida o aumento do número de mulheres em cargos estratégicos pode ajudar a ampliar a participação feminina na pesquisa?

Ana Frattini – As mulheres estão cada vez mais bem representadas. Hoje, várias universidades têm reitoras. Está havendo uma mudança cultural, mas, como no caso da inovação, as coisas acontecem de forma mais natural em alguns lugares do que em outros. Vai levar um tempo até que as mulheres sejam ouvidas facilmente em qualquer fórum. Não sou estudiosa do assunto, mas vejo que as mulheres ainda são muito críticas em relação a elas mesmas e às colegas. Sempre nos perguntamos se deveríamos ocupar a posição que ocupamos, se merecíamos receber este convite ou aquela indicação, se estamos no caminho certo, se não exageramos nisto ou naquilo… Aqui mesmo, na PRP, eu relutei em lançar o edital “Mais Mulheres na Pesquisa”, porque não queria dar a entender que estivesse legislando em causa própria. Foi preciso que um assessor insistisse que o edital era necessário para resolver um problema real, que já estava diagnosticado. Estando no alto escalão da administração universitária ou de agências de fomento, temos de mostrar que precisamos deixar de ser tão críticas conosco e que as mulheres devem se posicionar mais na liderança dos grupos de pesquisas. Podemos estar onde quisermos, e não deve haver sofrimento em caso de manifestação de desconfiança sobre o nosso trabalho. Não gosto de embates, nem de enfrentamento. Apenas reflito, e as minhas respostas vêm sempre com ações. Pode ter sido uma coincidência, mas quando deixei a Inova, havia mais engenheiras procurando a agência, mais mulheres interessadas em estagiar ou trabalhar lá. Espero que este efeito se multiplique pela Universidade, estando na posição que hoje ocupo.

Foto de capa:

A engenheira química Ana Maria Frattini Fileti, primeira mulher a ser indicada para o cargo de diretora científica da Fapesp
A engenheira química Ana Maria Frattini Fileti, primeira mulher a ser indicada para a Diretoria Científica da Fapesp

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O carbono esquecido debaixo do Cerrado https://jornal.unicamp.br/noticias/2026/03/12/o-carbono-esquecido-debaixo-do-cerrado/ Thu, 12 Mar 2026 14:15:58 +0000 https://jornal.unicamp.br/?p=57045 Veredas e campos úmidos do bioma armazenam até oito vezes mais carbono por hectare do que a Amazônia

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Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida
Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida

O carbono esquecido debaixo do Cerrado

Veredas e campos úmidos do bioma armazenam até oito vezes mais carbono por hectare do que a Amazônia

Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida
Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida

Descobertas no Cerrado brasileiro estão prestes a redesenhar o mapa global de estoques de carbono e a forma como a ciência compreende a importância das savanas no equilíbrio do planeta. Por décadas, esse bioma foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida, ocupando o papel de ‘patinho feio’ ou ‘boi de piranha’ nas políticas de conservação brasileira, que privilegiavam quase exclusivamente a exuberância úmida da Amazônia e de outras florestas tropicais.

A ecóloga Larissa Verona: parte do solo é um grande estocador de carbono
A ecóloga Larissa Verona: descobertas no Cerrado podem redesenhar o mapa climático global
A ecóloga Larissa Verona: parte do solo é um grande estocador de carbono
A ecóloga Larissa Verona: descobertas no Cerrado podem redesenhar o mapa climático global

No entanto, uma pesquisa inédita liderada pela ecóloga Larissa Verona, mestre em Biologia Vegetal pela Unicamp, em conjunto com outros pesquisadores da universidade, do Instituto Max Planck (Alemanha), do Cary Institute e da Universidade Yale (EUA), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, mostra que as veredas e os campos úmidos do Cerrado são capazes de estocar até oito vezes mais carbono por hectare do que o carbono presente na biomassa aérea de uma floresta amazônica típica, transformando o que antes era visto como uma paisagem sazonalmente seca em um cofre climático gigantesco.

“Estamos mostrando que parte do solo é um grande estocador de carbono, e as turfeiras do Cerrado [áreas úmidas, onde restos de plantas se acumulam e se decompõem lentamente, formando um solo rico em matéria orgânica] têm esse potencial exacerbado. Conservar esse estoque evita a emissão do que estaria indo para a atmosfera se degradássemos esse solo”, explica Verona. Esse e outros achados estão em um artigo publicado na revista New Phytologist.

Por meio de aferições de isótopos radioativos de carbono feitas no solo em profundidades de até quatro metros, os pesquisadores concluíram que esses reservatórios contêm carbono acumulado há mais de 20 mil anos. Apesar de o longo período trazer a impressão de se tratar de estoques seguros de carbono, o estudo revela que são frágeis diante das alterações na dinâmica hídrica da região e do rebaixamento dos lençóis freáticos. “Se começarmos a drenar essas turfeiras e liberar esse carbono acumulado, lançaremos bombas de carbono na atmosfera. É uma quantidade de carbono orgânico até então desconhecida, em uma grande extensão e em um bioma improvável”, alerta o professor do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp Rafael Oliveira, coordenador do estudo e orientador de Verona.

O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera
O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera

Berço das águas sob ameaça

O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera
O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera

Com quase dois milhões de quilômetros quadrados, o Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e representa 23,3% do território. Presente em 16 estados e no Distrito Federal, é conhecido como “berço das águas” por abrigar oito das 12 nascentes das principais bacias hidrográficas do Brasil, além de três grandes aquíferos. Dentro desse bioma, estão as veredas e os campos úmidos, onde se encontram as turfas e os solos ricos em carbono orgânico.

Veredas são zonas úmidas que aparecem no Cerrado como ilhas lineares encaixadas em vales rasos e nascentes de rios. Os campos úmidos são ecossistemas semelhantes, mas sem as palmeiras, compostas por extensões herbáceas encharcadas, dominadas por gramíneas e sedges, que também foram objeto de análise do estudo.

Até então, o consenso global científico ditava que grandes áreas de turfeiras existiam majoritariamente em regiões de frio extremo no Hemisfério Norte ou sob florestas tropicais de chuva constante, como na Bacia do Congo ou na Amazônia peruana. Sob essa perspectiva, o clima do Cerrado, com sua estação de seca severa de seis meses, não teria condições de sustentar a umidade necessária para formar turfas. Como consequência, grande parte desses estoques de carbono permaneceu fora das estimativas globais sobre o papel dos ecossistemas tropicais na regulação do clima.

Oliveira ressalta que o Brasil Central foi historicamente excluído de mapeamentos globais de áreas úmidas porque “temos dificuldade de entender parte da nossa própria natureza quando ela foge do viés que associa áreas úmidas a ambientes muito chuvosos e florestais”. O diferencial está no subsolo: “A água do Cerrado está principalmente no componente subterrâneo. Quando a zona freática aflora na superfície, determina a baixa decomposição da matéria orgânica e, consequentemente, possibilita a acumulação do carbono.”

As veredas operam como uma “caixa d’água invertida”: a água da chuva se infiltra profundamente no solo e recarrega os reservatórios subterrâneos que afloram na superfície, mantendo a terra permanentemente saturada. Esse encharcamento contínuo cria um escudo que bloqueia o oxigênio e impede que microrganismos decomponham a matéria orgânica, permitindo que o carbono retirado da atmosfera seja enterrado e preservado no solo por milênios.

“Quando você olha uma paisagem do Cerrado à distância, você vê a savana e os campos, mas a Vereda está encaixada ali e ocupa um espaço pequeno. Pensando na escala do ecossistema inteiro, essas pequenas áreas se tornam muito importantes”, resume Verona. Com base nos levantamentos feitos pela equipe, as turfeiras representam, ao todo, cerca de 8% da área do Cerrado – uma extensão de 16,7 milhões de hectares, maior do que o estado do Acre, que tem 15,2 milhões de hectares.

Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade
Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade

Do campo à tecnologia

Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade
Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade

O que diferenciou esse trabalho dos estudos anteriores foi a profundidade das coletas. Enquanto outras pesquisas analisaram camadas superficiais, de 20 centímetros a um metro de profundidade, os pesquisadores da Unicamp utilizaram sondas tubulares metálicas, conhecidas como Russian Peat Auger, para extrair amostras de solo de até 4 metros, o que foi determinante para os resultados encontrados. “Se não fôssemos para campo e fizéssemos as medidas, nunca saberíamos qual a profundidade desses solos, e isso muda todo o cenário”, disse Verona. Caso a coleta fosse restrita apenas à camada superficial, como em outros estudos, o carbono total seria subestimado em até 95%.

As amostras foram suficientes para confirmar o acúmulo de carbono nas turfas, mas era importante estimar o total para o bioma de quase 2 milhões de quilômetros quadrados. Para isso, parte da equipe treinou um algoritmo para encontrar veredas e campos úmidos nessa imensidão, cruzando dados topográficos e dos satélites Sentinel-1 e2. O modelo de aprendizado de máquina utilizado (Random Forest) foi validado com dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR), registro público em que proprietários de terras precisam declarar a presença de veredas, classificadas no Código Florestal como Áreas de Preservação Permanente (APPs).

O mapeamento chegou ao total de cerca de 16,7 milhões de hectares. Em termos de carbono, isso representa uma média de aproximadamente 1,2 mil tonelada de carbono por hectare, armazenadas principalmente no solo. Para ter uma ideia da proporção, Verona conta que, se todas as veredas mapeadas acumularem a mesma quantidade média de carbono do que as áreas das amostras, as veredas do Cerrado, sozinhas, respondem por cerca de 20% de todo o carbono estocado pela biomassa da Amazônia. Contudo, são necessários mais estudos para que essa estimativa seja confirmada. Ainda segundo a pesquisadora, a ciência estima que as turfas de todo o mundo armazenam mais carbono do que toda a biomassa dos seres vivos – plantas e animais – combinada.

Amostra que confirma o acúmulo de carbono nas turfas
Amostra de turfa retirada na Chapada dos Veadeiros

Longevidade e sensibilidade

Amostra que confirma o acúmulo de carbono nas turfas
Amostra de turfa retirada na Chapada dos Veadeiros

A importância cronológica desse solo também foi posta à prova. Algumas das amostras foram enviadas ao Instituto Max Planck para análises biogeoquímicas, sob os cuidados de Susan Trumbore, uma das maiores especialistas mundiais em ciclos de carbono e datação por radiocarbono. As avaliações apontaram que o processo de formação das turfeiras estudadas começou há pelo menos 20 mil anos. “Trata-se de uma verdadeira cápsula do tempo geológico e climático”, escrevem os pesquisadores no artigo, notando que o sistema operou como um cofre silencioso, resistindo a milênios de variações climáticas.

Nem tudo é celebração, sobretudo diante de décadas de intervenções humanas no bioma. Através de análises de espectrometria de infravermelho (FT-IR), as veredas e campos úmidos do Cerrado foram comparados com outras turfeiras tropicais, e uma fragilidade alarmante foi descoberta.

Enquanto as turfeiras de florestas são ricas em lignina – composto fibroso e resistente, difícil de ser digerido pelas bactérias –, constatou-se que as do Cerrado produzem turfa a partir de gramíneas e ervas, material carregado de holocelulose, de fácil digestão para os microrganismos. Verona descreve as moléculas de holocelulose como um “algodão doce” para as bactérias do solo: uma fonte de energia fácil e instantânea.

Da esquerda para a direita, Paulo Bernardino, Larissa Verona, Guilherme Alencar, Natashi Pilon, Rafael Oliveira durante durante o trabalho de campo na Chapada dos Veadeiros:
Da esquerda para a direita, Paulo Bernardino, Larissa Verona, Guilherme Alencar, Natashi Pilon, Rafael Oliveira durante durante o trabalho de campo

O único motivo pelo qual esse estoque não foi consumido nos últimos milênios foi justamente o escudo de água que mantém os microrganismos dormentes por falta de oxigênio. Quando esse escudo baixa, mesmo que sazonalmente, as bactérias encontram o substrato ideal e o ciclo de decomposição se acelera.

As análises feitas a partir dos dados de fluxos de gases confirmam que essa “bomba-relógio” já dá sinais de ativação sazonal. Equipamentos instalados em campo mediram as emissões de dióxido de carbono (CO₂) e metano (CH₄) ao longo de um ano e revelaram que 70% das emissões anuais ocorrem durante a estação seca. Quando o lençol freático desce naturalmente por conta da estiagem, o oxigênio invade o solo, e as bactérias iniciam seu banquete frenético no alimento acumulado por 20 mil anos. O impacto é preocupante, especialmente em relação ao metano, que possui um potencial de aquecimento global muito superior ao CO₂.

A vulnerabilidade das veredas e dos campos úmidos é agravada por sua distribuição “dendrítica”, segundo Oliveira. Ao contrário de grandes extensões contínuas, como as turfeiras do Congo ou da Amazônia peruana, elas não se organizam em massas compactas, mas em áreas pequenas, fragmentadas e ramificadas que acompanham a rede de drenagem por todo o bioma. São finas tiras sinuosas que acompanham as nascentes e riachos de primeira ordem, espalhando-se pela paisagem como neurônios. Por serem longas e estreitas, estão em contato permanente com áreas de agricultura intensiva e são diretamente afetadas pelo uso da água ao seu redor.

Legislação e expansão agrícola

Apesar de sua importância e da existência de leis para proteger essas áreas, as veredas e campos úmidos enfrentam ameaças crescentes devido a mudanças no uso da terra, à drenagem de áreas úmidas, à expansão agrícola e à intensificação das secas associadas às mudanças climáticas. Esses distúrbios podem fazer com que os ecossistemas passem de importantes sumidouros de carbono a fontes de emissões, liberando para a atmosfera estoques acumulados ao longo de milhares de anos.

Quando propriedades vizinhas a essas áreas instalam pivôs centrais de irrigação que sugam grandes volumes dos lençóis freáticos, o nível da água de toda a bacia é rebaixado – explica a ecóloga –, fazendo com que as veredas e campos úmidos sequem debaixo do solo.

As descobertas abrem uma nova fronteira para a conservação. Para os pesquisadores, elas evidenciam os limites de uma visão historicamente “florestocêntrica”, que priorizou a Amazônia em detrimento das savanas e áreas úmidas abertas – e que resultou em décadas de negligência com o Cerrado, tanto científica quanto política. Proteger a vegetação visível das veredas sem proteger o regime hídrico da bacia ao redor é, segundo os estudiosos, uma proteção incompleta. “A gestão do território não pode ser apenas sobre plantas. A gestão da água e a gestão do carbono são, neste bioma, a mesmíssima coisa”, defende Oliveira.

A principal questão suscitada pelo estudo, que ainda demanda respostas, é também a mais urgente para os pesquisadores: ainda não se sabe quanto desse estoque já foi perdido. “O Cerrado está tão alterado que já percebemos no cotidiano as secas mais intensas, os rios com menos água, e não sabemos o quanto já perdemos desses ecossistemas. As evidências indicam que algo já foi perdido, mas a dimensão dessa perda ainda é uma pergunta sem resposta”, avalia o professor.

Confira artigo completo na revista New Phytologist.

Foto de capa:

Pesquisa transforma o que antes era visto como uma paisagem sazonalmente seca em um cofre climático gigantesco
Pesquisa transforma o que antes era visto como uma paisagem sazonalmente seca em um cofre climático gigantesco (Foto: André Dib)

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‘A fome não é um problema de produção, mas de acesso’, aponta José Graziano, idealizador do Fome Zero https://jornal.unicamp.br/noticias/2026/03/11/a-fome-nao-e-um-problema-de-producao-mas-de-acesso-aponta-jose-graziano-idealizador-do-fome-zero/ Wed, 11 Mar 2026 20:08:27 +0000 https://jornal.unicamp.br/?p=56978 Professor emérito participa do 1º Fórum de Engenharia de Alimentos da Unicamp, na FEA; desperdício, saúde e desafios do clima são temas em pauta

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Safras recordes não são, necessariamente, a solução para acabar com a fome ou oferecer uma dieta saudável no prato da população em geral. No Brasil, a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) aponta que 6,4 milhões de pessoas ainda enfrentam insegurança alimentar grave diariamente, mesmo com 292,5 milhões de toneladas de grãos colhidas em 2024. O economista e filósofo indiano Amartya Sen, ganhador do Nobel de Ciências Econômicas em 1998, já alertava sobre a questão. Essa incômoda marca foi um dos destaques da palestra do engenheiro agrônomo, doutor em Economia e professor emérito da Unicamp, José Graziano da Silva, intitulada “Combate à fome e desperdício de alimentos”. Ao lado de outros especialistas da área, ele participou do “1º Fórum de Engenharia de Alimentos da Unicamp”, realizado pela Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), nesta terça-feira (10).

O evento, direcionado para a comunidade acadêmica e para integrantes de instituições públicas, serviu para debater temas como a fome e o desperdício. As mudanças climáticas e seus impactos na cadeia produtiva, o papel da alimentação na promoção da saúde e a importância do processamento de alimentos no desenvolvimento da humanidade também estiveram em pauta.

Da esquerda para a direita, o ex-reitor Antonio Meirelles, a pró-reitora de Pós-Graduação, Cláudia Morelli e o diretor da FEA, Anderson de Souza Sant'Ana: Primeira edição do Fórum tratou do combate à fome e desperdício de alimentos
Da esquerda para a direita, o ex-reitor Antonio Meirelles, a pró-reitora de Pós-Graduação, Cláudia Morelli e o diretor da FEA, Anderson de Souza Sant’Ana: Primeira edição do Fórum tratou do combate à fome e desperdício de alimentos

Graziano, que foi um dos idealizadores do Programa Fome Zero – implantado em 2003 como uma iniciativa focada em agricultura familiar, educação nutricional e transferência de renda como forma de combater um problema crônico brasileiro –, afirmou que não basta apenas o sucesso no campo. De acordo com o pesquisador, é preciso investir em uma diversidade maior de produtos que realmente tragam nutrição saudável no dia a dia e que as pessoas possam comprar. “No Brasil, temos recorde atrás de recorde e continuamos com números assustadores da fome. Isso não é um problema de produção, mas de acesso. No caso da dieta saudável, temos um cenário ainda pior. Uma região que é o grande celeiro do mundo, como a América Latina, deveria ter um cardápio barato, mas não tem. Paradoxalmente, os latino-americanos têm uma das dietas saudáveis – que incluem frutas, verduras e legumes – com um dos custos mais altos do mundo.”

A transformação desse cenário – continuou Graziano – passa por uma nova mentalidade, e o meio acadêmico tem função estratégica nisso. “A universidade tem esse papel social, não apenas de formar pessoas que vão trabalhar nesses temas, mas também de aportar soluções. Muitas das políticas públicas desse país surgiram de iniciativas gestadas aqui na Unicamp, começando até mesmo pelo Fome Zero”, salientou. “Cada vez mais, precisamos envolver e complementar a formação técnica com essa responsabilidade social. Um seminário como esse da FEA vai nessa linha, já que o propósito é exatamente ajudar a chamar a atenção de alunos e professores, que transmitem esses conhecimentos”, acrescentou.

O evento foi direcionado para a comunidade acadêmica e para integrantes de instituições públicas
O evento foi direcionado para a comunidade acadêmica e para integrantes de instituições públicas

Desafios nacionais e mundiais

A professora Cláudia Vianna Maurer Morelli, pró-reitora de Pós-graduação, representante do reitor Paulo Cesar Montagner no evento, também destacou o papel da Universidade como difusora de novas formas de atuar perante os desafios nacionais e mundiais. “Atualmente, temas como fome, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida são essenciais. E a Unicamp é uma das universidades que mais fomentam políticas públicas no país.”

Já o ex-reitor da Unicamp e docente da FEA, Antonio José de Almeida Meirelles, abordou os “Marcos no processamento de alimentos no desenvolvimento da humanidade”. Segundo Meirelles, num país que possui uma agricultura forte e produz muitos alimentos – tanto na agroindústria como na agricultura familiar –, é preciso pensar em alimentos que, cada vez mais, dialoguem com a saúde. “Isso coloca necessidades e desafios para a Engenharia de Alimentos, para o processamento e a industrialização crescentes. Temos uma variedade grande de produtos para pessoas que têm algum tipo de restrição, por exemplo, e essa é uma preocupação que precisa estar cada vez mais presente, até pelo envelhecimento da população. Para nosso país, é uma grande oportunidade.”

Temas urgentes e estruturais

Anderson de Souza Sant’Ana, diretor da FEA, ressaltou que é importante construir um espaço dedicado a discutir temas que são, ao mesmo tempo, urgentes e estruturais para o Brasil. “Nossa pauta vai muito além da Engenharia, da Ciência e da Tecnologia de Alimentos. Essas áreas são importantes para a soberania, a saúde e o futuro da nossa sociedade.”

Sant’Ana lembrou ainda que, historicamente, a Engenharia de Alimentos sempre foi vista sob uma ótica estritamente industrial. No entanto, os desafios contemporâneos exigem um outro papel de protagonismo. “Devido ao seu caráter multidisciplinar, a Engenharia de Alimentos deve se apropriar desses problemas reais do país. É fundamental que esses temas discutidos no fórum se tornem pontos centrais nos currículos de graduação e pós-graduação. Precisamos formar profissionais que não apenas dominem o processamento, mas que também compreendam o alimento como um vetor de saúde pública e desenvolvimento social.”

Professor UFABC Arilson da Silva Favareto: desigualdades no mundo
Professor UFABC Arilson da Silva Favareto: desigualdades no mundo

Mudanças climáticas

Também como palestrante, o professor da UFABC Arilson da Silva Favareto abordou o tema “Como as mudanças climáticas poderão impactar na cadeia produtiva de alimentos”. De acordo com Favareto, aprimorar a relação entre a forma de produzir e distribuir alimentos e a conservação ambiental é um dos grandes desafios mundiais. “É um assunto tão importante quanto o combate ao aumento das desigualdades no mundo, a ameaça à paz e a defesa da democracia. Temas incontornáveis que são enfrentados pela nossa geração e serão encarados pelas próximas também”, apontou.

O fórum contou ainda com a presença do professor Licio Augusto Velloso, que tratou sobre o “Papel dos alimentos e da alimentação na promoção à saúde”, reforçando a mentalidade de aliar produção, acesso, responsabilidade social e preocupação com o bem-estar da população. Ao final, os presentes debateram os assuntos abordados.

Aula Magna na Feagri

A Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) realiza, no próximo dia 18, a partir das 9h30, a 1ª Aula Magna de seu programa de pós-graduação. Na ocasião, o professor Graziano falará sobre “O que ainda falta no Brasil depois de sair do Mapa da Fome”. 

Foto de capa:

José Graziano afirmou que não basta apenas o sucesso no campo é preciso investir em uma diversidade maior de produtos
José Graziano afirmou que não basta apenas o sucesso no campo é preciso investir em uma diversidade maior de produtos

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Nova cientista residente, Sabrina Fernandes traz para o debate as várias crises dos nossos tempos https://jornal.unicamp.br/noticias/2026/03/11/nova-cientista-residente-sabrina-fernandes-traz-para-o-debate-as-varias-crises-dos-nossos-tempos/ Wed, 11 Mar 2026 19:32:57 +0000 https://jornal.unicamp.br/?p=56981 Economista e socióloga goiana abre programação na Unicamp com palestra sobre a “policrise planetária”

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A economista e socióloga goiana Sabrina Fernandes é a nova cientista residente do Programa Cesar Lattes do Instituto de Estudos Avançados (IdEA) da Unicamp. Na residência, entre 16 de março e 16 de maio, sua proposta é tocar corações e mentes a respeito das múltiplas crises do mundo contemporâneo, a chamada “policrise planetária”, tema que permeia sua estadia na Unicamp.

Com mestrado em Economia Política e doutorado em Sociologia pela Universidade Carleton, no Canadá, Fernandes é atualmente chefe de pesquisa do Instituto Alameda e assessora-sênior de pesquisa do centro Technology & Industrialisation for Development da Universidaede de Oxford, no Reino Unido. Na residência, que inclui palestras, bate-papos e oficinas abertas ao público, ela pretende aprofundar questões que envolvem desordens e catástrofes, abordar conceitos como ecocídio e ecoceno, e trocar experiências sobre ativismo digital e o embate entre a linguagem do conhecimento e a linguagem do engajamento

Fernandes sustenta que, apesar do pessimismo que assola os pensamentos, ainda é possível manter um olhar apaixonado para o futuro. “É esse olhar apaixonado que vai dar energia para a gente construir alternativas”, afirma.

O Jornal da Unicamp conversou com a nova cientista residente sobre suas ideias, projetos e a programação que preparou.

A economista e socióloga Sabrina Fernandes: "É esse olhar apaixonado que vai dar energia para a gente construir alternativas"
A economista e socióloga Sabrina Fernandes: “É esse olhar apaixonado que vai dar energia para a gente construir alternativas”

Jornal da Unicamp (JU) – Como recebeu o convite para ser a nova cientista residente do IdEA?

Sabrina Fernandes – Fiquei muito animada porque é um programa que realmente permite interação e é voltado para a valorização da transdisciplinaridade. Normalmente, na universidade, ainda somos muito voltados a pensar dentro da nossa própria disciplina. O economista é economista, o sociólogo é sociólogo, o geólogo é geólogo e o matemático é matemático. O maior desafio de todos é construir uma linguagem comum. Como eu tenho formação em economia e sociologia, tive a oportunidade de ver formas diferentes de pensar quando estou em cada um desses lugares e tentar encontrar essa linguagem comum. Sinto que essa residência científica vai ter um efeito pessoal em mim, não só como cientista. Acho que consegui montar um programa bastante diverso, que toca em vários temas, todos relacionados à minha pesquisa.

JU – Do que trata a sua pesquisa?

Sabrina Fernandes –- Há alguns anos venho tentando compreender como as propostas de transição — muitas vezes tratadas como transição ecológica, transição climática ou transição justa — precisam ser melhor integradas para que possamos lidar com várias crises ao mesmo tempo. Em vez de falar apenas em crises múltiplas ou crises simultâneas em diferentes áreas, entendemos que essas crises interagem entre si e acabam piorando umas às outras. Uma solução parcial ou equivocada para um problema pode acabar agravando outro. Isso expande o nosso entendimento do que é uma solução e faz com que a gente tenha que avaliar também os riscos e perigos associados aos projetos alternativos que são apresentados.

JU – Sua palestra de abertura leva o título de “O desafio da policrise planetária e as visões de túnel que confundem caminhos”. O que vai apresentar?

Sabrina Fernandes – Quando falamos de policrise planetária, estamos olhando para além da nossa geografia local e entendendo que existe um ecossistema e um metabolismo da natureza que são globais. Não tem como escapar disso. Também precisamos rever como pensamos cooperação, solidariedade e responsabilidade, para que não seja apenas com interesses locais ou mais imediatos. As responsabilidades precisam estar atreladas também aos outros povos e países, para que possamos pensar caminhos de cooperação baseados em interesses comuns. Muitas vezes esses interesses são esvaziados ou ignorados porque a lógica global predominante é uma lógica de competição.

JU – Diante dessa policrise, como está o seu olhar para o futuro?

Sabrina Fernandes – Acho que vale a pena olhar para o futuro com um olhar mais carinhoso e apaixonado, porque infelizmente a nossa realidade anda um pouco contrária a isso. A gente está com um olhar muito pessimista para o futuro — e eu concordo, porque eu mesma sou muito pessimista — mas isso não exclui ter um olhar apaixonado. É esse olhar apaixonado que vai dar energia para a gente construir alternativas.

JU – Você incluiu o tema do ecoceno em um dos bate-papos. Pode explicar o que vai ser abordado?

Sabrina Fernandes – O ecoceno é uma lente sobre a existência futura da sociedade humana que entende que não basta salvar o planeta — o planeta continuará existindo independentemente de nós. O que precisamos salvar é o planeta que permite a nossa vida. É interessante pensar no Antropoceno como um momento em que, por mais que seja extremamente perigoso e delicado, nós, como espécie humana, temos o privilégio de poder ver o que está acontecendo e tentar desenvolver ferramentas para lidar com isso. Infelizmente, esse privilégio muitas vezes não está sendo aproveitado por causa das estruturas de poder que acabam piorando a situação. O programa que montei começa pelo problema, pelo desafio, e depois tenta costurar possíveis alternativas.

JU – Quais seriam essas alternativas?

Sabrina Fernandes – Na imaginação popular, muitas vezes influenciada pela ficção científica e pelas distopias, existe a ideia de um apocalipse em que sobra um pequeno grupo de heróis para reconstruir a humanidade. Isso mostra como temos dificuldade de imaginar utopias. Há valor nisso, no sentido de resistências, mas da mesma forma como a gente se coloca facilmente em narrativas distópicas, o objetivo também deveria ser pensar em como evitar o fim do mundo e como construir uma sociedade melhor a partir disso. Esse deslocamento de perspectiva também é um dos objetivos das discussões que vamos fazer na Unicamp nestes próximos dois meses.

Páginas do livro Sintomas Mórbidos de autoria de Sabrina Fernandes
Páginas do primeiro livro da autora: Sintomas Mórbidos

JU – Em 2019, você lançou o livro Sintomas Mórbidos, e, um ano depois, Se quiser mudar o mundo. Do que tratam esses livros? E sobre o seu terceiro livro, que você acaba de finalizar, qual é o tema?

Sabrina Fernandes – O meu primeiro livro foi escrito a partir de uma pesquisa de campo que conduzi durante o doutorado, e também um pouco depois dele, que analisa a organização política no Brasil desde junho de 2013, a fragmentação e a despolitização, além das contradições entre campos mobilizados e desmobilizados. O segundo livro é um trabalho mais introdutório, voltado para o letramento político da população. Ele explica, por exemplo, o que é um sindicato, o que é um movimento social, o que é o capitalismo e o que são as mudanças climáticas. A ideia é mostrar que tudo é político. Nem tudo é explicitamente político o tempo todo, mas nossas ações e decisões acontecem dentro de um sistema político. Agora estou finalizando um novo livro, que será publicado pela editora Planeta e que se relaciona com a temática da policrise planetária ao trazer uma perspectiva do Sul Global, olhando para a América Latina, para o Brasil e para países periféricos.

JU – Qual será sua abordagem a respeito dos conflitos de soberania que assolam o mundo?

Sabrina Fernandes – Uma das atividades que vou desenvolver na Unicamp se chama “Pesquisa estratégica entre a desordem e a catástrofe”. Será uma atividade híbrida no IdEA. Um dos convidados é o Juliano Fiori, diretor do Instituto Alameda, onde trabalho, e também teremos a participação da pesquisadora Vanessa Oliveira. Queremos criar uma ponte entre a Unicamp e o instituto, para que a troca não fique restrita apenas à minha presença. Nossa linha de pesquisa trata de conflitos de soberania, incluindo temas como soberania digital, militarismo, novas invasões e o enfraquecimento do multilateralismo e do direito internacional. É um campo de estudo que está mudando muito rapidamente, com novos dados e acontecimentos surgindo o tempo todo. Essa atividade será uma oportunidade para tentar construir coletivamente um entendimento sobre essas transformações e também discutir o papel do Brasil nesse cenário, incluindo, por meio do meu trabalho, a perspectiva da “soberania ecológica”.

JU – Você manteve um canal de sucesso na internet, o Tese Onze, cujo nome é uma referência à obra Teses sobre Feuerbach, escrita por Karl Marx em 1845, e passou a ser identificada como influencer, mas decidiu se retirar do mundo online. O que a levou a essa decisão?

Sabrina Fernandes – Eu decidi me aposentar desse trabalho em 2023. Eu nunca gostei muito do rótulo de “influencer”, porque não acho que era exatamente isso que eu fazia. Influenciadores normalmente trabalham a partir da própria vida pessoal, e esse nunca foi o meu caso. O que eu fazia era divulgação científica e divulgação política. O Tese Onze era um projeto voltado a explicar conceitos políticos e debates contemporâneos para um público mais amplo, com o objetivo de transformação da sociedade, e trabalhei nele enquanto fazia dois pós-doutorados e escrevia meus dois livros. Então senti que estava pesando muito tentar conciliar tudo isso. O papel que eu queria cumprir era ensinar que é possível fazer um debate na internet que envolva a política de forma respeitosa e de forma responsável. Isso foi possibilitado justamente pelo vínculo com a pesquisa. Foi gostoso enquanto durou, mas eu nunca pretendi fazer isso para o resto da vida, porque o meu trabalho é como pensadora.

JU – Uma das oficinas na Unicamp vai tratar justamente sobre linguagem, conhecimento e engajamento. O que pretende apresentar?

Sabrina Fernandes – No IEL [Instituto de Estudos da Linguagem] eu vou fazer uma oficina de divulgação científica com a ideia de mostrar que nós temos o potencial de ocupar bem esse espaço, mas ele não pode ser ocupado simplesmente visando à maximização do engajamento a todo custo. Se isso acontece, a gente acaba se assemelhando àqueles que estão vulgarizando o conhecimento, divulgando fake news e promovendo desinformação. Então, se o seu objetivo — e você tem que saber qual é o seu objetivo — é realmente informar e educar, você precisa de projeto, estratégia e metodologia para fazer isso de forma adequada. As métricas serão outras, não mais a quantidade de likes ou  visualizações de vídeos, mas a criação de comunidades ou o quanto aquele debate foi replicado organicamente pelas próprias pessoas. Precisamos ter nossos objetivos muito claros.

JU – Além de sua produção autoral, você é responsável por reedições das obras de Karl Marx e Friedrich Engels no Brasil, incluindo o Manifesto Comunista, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte e um box especial com os três volumes de O Capital, com introdução, revisão técnica e notas originais. Como foi esse trabalho?

Sabrina Fernandes – Foi um processo muito interessante. O grupo editorial Record é detentor de alguns direitos de tradução dessas obras no Brasil. Minha editora me procurou porque existe um interesse renovado por essas obras, mas era necessário contextualizá-las. Não basta simplesmente colocar um livro do século 19 na mesa do leitor atual. É preciso ajudar a interpretar o texto a partir dos desafios do século 21, como as mudanças climáticas, por exemplo. Colaborei na reedição do box com os volumes 1, 2 e 3 de O Capital. Dentro da ecologia marxista e da economia ecológica, que são campos em que trabalho, o volume 3 tem uma importância muito grande, porque traz uma crítica ecológica ao sistema produtivo. Foi muito especial participar desse processo. Eu passei um período na Alemanha e na Áustria, o que também me ajudou na revisão técnica das traduções. Para alguém que leu Marx pela primeira vez aos 18 ou 19 anos, ter um livro de Marx e Engels com seu nome na capa é algo muito simbólico.

Programação

17 de março, às 14h | Instituto de Economia (IE)

Palestra “O desafio da policrise planetária e as visões de túnel que confundem caminhos (Inscrições)

1º de abril, às 14h | Instituto de Estudos Avançados (IdEA)

Oficina sobre divulgação científica (Inscrições)

9 de abril, às 14h | Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)

Roda de conversa: “Da linguagem do conhecimento à linguagem do engajamento: refletindo sobre a comunicação nas plataformas digitais” (Inscrições)

10 de abril, às 14h | Instituto de Estudos Avançados (IdEA)

Bate-papo “Pesquisa estratégica entre a desordem e a catástrofe” (Inscrições)

11 de maio, às 14h | Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)

Bate-papo “Ecocídio e genocídio na periferia do mundo” (Inscrições)

14 de maio, às 14h | Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)

Palestra de encerramento “Ecoceno: a transição como um desvio ao futuro” (Inscrições)

Foto de capa:

Residência acontece entre 16 de março e 16 de maio e trará como tema central a chamada “policrise planetária”
Residência acontece entre 16 de março e 16 de maio e trará como tema central a chamada “policrise planetária”

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Mito da democracia racial é tema de aula magna com Lilia Schwarcz https://jornal.unicamp.br/noticias/2026/03/10/mito-da-democracia-racial-e-tema-de-aula-magna-com-lilia-schwarcz/ Tue, 10 Mar 2026 20:31:18 +0000 https://jornal.unicamp.br/?p=56933 Historiadora e antropóloga participou de evento que comemorou os 50 anos do Instituto de Estudos da Linguagem

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A historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz ministrou nesta segunda-feira (9) uma aula magna sobre o mito da democracia racial e o papel das imagens na história brasileira, durante evento que celebrou os 50 anos do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). Em sua apresentação, ela propôs uma reflexão sobre a relação entre a linguagem escrita e a linguagem visual na construção de narrativas sociais.

Autora de mais de 30 livros nas áreas de antropologia, história e história da arte, a professora-sênior do Departamento em Antropologia Social na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) é membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2024 e atualmente leciona como professora visitante na Universidade Princeton, nos Estados Unidos.

A historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz ministrou aula magna do IEL, nesta terça-feira, dia 10, no Centro de Convenções
A historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz ministrou aula magna do IEL, nesta segunda-feira, dia 9, no Centro de Convenções

Diante do auditório lotado do Centro de Convenções, Schwarcz destacou, no início da aula, sua relação com a universidade pública e com a própria Unicamp. “Toda a minha formação se deu na escola pública e tenho plena convicção da importância da universidade pública na produção republicana e cidadã de um país tão desigual como o Brasil”, afirmou. Ela também lembrou sua trajetória na Universidade: “Fui aluna do mestrado na Antropologia e depois dei aula por vários anos. A Unicamp sempre teve um papel formativo muito importante na minha vida.”

Durante sua apresentação, Schwarcz ressaltou que, em uma sociedade que vive da imagem, é preciso entender que documentos visuais não são apenas ilustrações. “Eles produzem valores, significados e também desigualdades. A palavra ‘imagem’ tem a mesma raiz de ‘magia’. As imagens produzem imaginação e naturalizam percepções”, explicou.

A professora Adriana Nunes Ferreira, do Instituto de Economia (IE), que representou o reitor da Unicamp, Paulo Cesar Montagner, destacou o papel simbólico da aula magna e a importância de discutir o mito da democracia racial no contexto das transformações recentes nas universidades brasileiras. “Sabemos que a ideia de democracia racial muitas vezes foi celebrada como marca da singularidade brasileira, mas também operou como um mecanismo de silenciamento”, disse.

Da esquerda para a direita, as professoras Adriana Nunes (IE) e Lúcia Granja (IEL) e o diretor do IEL, Petrilson Pinheiro da Silva
Da esquerda para a direita, as professoras Adriana Nunes (IE) e Lúcia Granja (IEL) e o diretor do IEL, Petrilson Pinheiro da Silva

Petrilson Pinheiro da Silva, diretor do IEL, ressaltou a ligação histórica de Schwarcz com a Universidade. “Parte dessa história, tanto da Unicamp quanto do IEL, passa pela professora Lilia Schwarcz”, afirmou. Lúcia Granja, coordenadora de graduação do curso de Teoria Literária do IEL, também destacou a trajetória da convidada. “É uma pessoa que abriu trilhas, ampliou debates e consolidou uma presença feminina forte e incontornável no pensamento brasileiro”, definiu.

Construção de sentidos

Schwarcz citou reflexões de pensadores como Ludwig Wittgenstein, Roland Barthes e Michel Foucault para discutir como texto e imagem podem se complementar ou até se contradizer na construção de sentidos. Segundo ela, compreender essa relação é essencial para analisar a formação de narrativas sobre a história do Brasil.

Um dos pontos centrais da apresentação foi a discussão sobre o chamado mito da democracia racial, conceito associado às interpretações da sociedade brasileira formuladas ao longo do século 20. Para Schwarcz, o termo “mito” não deve ser entendido apenas como uma falsidade. “Mito não é mentira. Mito é contradição”, afirmou. “Ele nasce, cresce e se desenvolve a partir de tensões históricas.”

Público lotou o auditório do Centro de Convenções para a aula magna "Imagens da branquitude: o mito da democracia racial como linguagem"
Público lotou o auditório do Centro de Convenções para a aula magna “Imagens da branquitude: o mito da democracia racial como linguagem”

A professora destacou ainda que a construção dessa narrativa está ligada a estruturas de poder e a posições sociais específicas. Ao longo da aula, apresentou diferentes obras visuais para discutir como as representações artísticas contribuíram para consolidar determinadas interpretações sobre o país. “Quando uma imagem aparece uma vez, pode ser coincidência. Quando aparece repetidas vezes, percebemos que existe um projeto narrativo”, destacou.

Entre os exemplos analisados estava a gravura “América”, do artista flamengo Jan van der Straet, de 1589. A obra representa o encontro simbólico entre o colonizador europeu e o continente americano. Na gravura, o continente é representado como uma mulher nua, deitada em uma rede em meio a uma paisagem paradisíaca. À esquerda está o colonizador europeu, vestido e acompanhado de instrumentos científicos, bandeiras e uma caravela — símbolos associados à ideia de civilização. A análise das imagens levou a pesquisadora a discutir como, no século 19, essas narrativas passaram a integrar projetos de construção da identidade nacional.

Outro exemplo citado foi o do naturalista alemão Carl Friedrich von Martius, que participou de um concurso promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1844 sobre como escrever a história do Brasil. No ensaio vencedor, Martius propôs a metáfora dos “três rios”, segundo a qual a formação do país resultaria da contribuição de três matrizes: portuguesa, indígena e africana. Para Schwarcz, embora o texto seja frequentemente interpretado como uma valorização da mistura, ele também revela a hierarquia racial presente na época. “A mestiçagem não significava igualdade. Nesse modelo, a mistura era vista como caminho para o branqueamento”, afirmou.

À esquerda a reprodução da obra A Pátria, do artista Pedro Bruno (1919); à direita Cena da Família, de Adolfo Augusto Pinto (1891)
À esquerda a reprodução da obra A Pátria, do artista Pedro Bruno (1919); à direita Cena da Família de Adolfo Augusto Pinto (1891)

Segundo a historiadora, essa ideia aparece de forma explícita na pintura “A redenção de Cam” (1895), do artista espanhol Modesto Brocos. A obra foi utilizada pelo diretor do Museu Nacional, João Batista de Lacerda, durante o Primeiro Congresso Universal das Raças, realizado em Londres em 1911. “Na ocasião, Lacerda defendia a tese de que a população negra desapareceria no Brasil em poucas gerações por meio da mestiçagem. Na pintura, aparecem três gerações de uma família: uma avó negra, uma mãe mestiça e uma criança branca de olhos azuis”, explica. Para Schwarcz, a imagem sintetiza visualmente o ideal de branqueamento que marcou o pensamento racial brasileiro no final do século 19 e início do século 20.

Schwarcz também analisou a obra “Cena da Família de Adolfo Augusto Pinto”, de 1891, do pintor Almeida Júnior, destacando como elementos da composição revelam hierarquias sociais e de gênero presentes na sociedade brasileira do período. Para a pesquisadora, a repetição desses elementos em diferentes representações visuais indica a existência de narrativas estruturadas sobre identidade, civilização e poder.

Ao comentar a pintura “A Pátria”, de 1919, do artista Pedro Bruno, a professora destacou como a obra expressa uma visão alegórica da República brasileira e da construção da identidade nacional. Produzida no contexto das comemorações republicanas de 1888, a tela apresenta uma cena que, segundo ela, “não poderia ter um título mais evidente”. Na pintura, mulheres e crianças aparecem costurando a bandeira do Brasil e posicionando as estrelas que representam as antigas províncias, hoje estados da República. Os homens, por sua vez, não participam diretamente da cena: estão representados apenas em retratos pendurados na parede, entre eles figuras históricas como Deodoro da Fonseca e Tiradentes.

Na análise, Schwarcz chamou a atenção para a composição da imagem. “As mulheres retratadas são todas brancas e de aparência europeia. A criança que ocupa o centro da tela é descrita como muito branca, loira e de olhos azuis — características que, segundo a interpretação apresentada, reforçam uma representação idealizada do futuro da nação brasileira. Essa imagem vai se afirmar cada vez mais: a projeção do brasileiro como criança branca e loira”, explicou. No chão, a bandeira em elaboração sugere a ideia de que a própria nação estaria sendo “costurada” naquele momento. “Esse é o Brasil que costura sua nacionalidade”, afirmou.

À esquerda, pintura “A redenção de Cam”, do artista espanhol Modesto Brocos (1895) e à direita campanha publicitária de 2019, no qual uma estudante negra, após formada, segura diploma com mão de pessoa branca
À esquerda, pintura “A redenção de Cam”, do artista espanhol Modesto Brocos (1895) e à direita campanha publicitária de 2019, no qual uma estudante negra, após formada, segura diploma com mão de pessoa branca

Durante a aula, Schwarcz exibiu um trecho do filme “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade, de 1969, adaptado na obra de Mário de Andrade. Na narrativa, três irmãos se banham em uma água encantada e, após o mergulho, emergem com cores de pele diferentes — um branco de olhos azuis, outro de tom bronzeado e o terceiro permanecendo negro. Para a pesquisadora, essa passagem “dialoga com representações recorrentes na cultura brasileira que associam mistura racial à hierarquia e ao branqueamento”.

A pesquisadora também mostrou exemplos de campanhas publicitárias, especialmente em anúncios de sabonetes, que prometiam “branquear” a pele. “As mais famosas eu não trouxe porque elas são muito perversas”, afirmou. Também exibiu uma propaganda de 2019 do governo Bolsonaro no qual uma estudante negra, após formada, segura seu diploma com a mão de uma pessoa branca. “É um detalhe apavorante.”

“Não existe pensamento sem palavras, e eu diria que também não existe pensamento sem imagens”, concluiu, citando a educadora Ana Mae Barbosa.

Foto de capa:

Ao longo da aula, apresentou diferentes obras visuais para discutir como as representações artísticas contribuíram para consolidar determinadas interpretações sobre o país
Ao longo da aula, apresentou diferentes obras visuais para discutir como as representações artísticas contribuíram para consolidar determinadas interpretações sobre o país

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